sábado, 11 de agosto de 2012

Seu Noé Miranda


Quando sai de Guaianazes (Um bairro distante na Zona Leste de São Paulo-SP) e passei a morar com meu pai no centro da cidade, em um prédio que hoje não existe mais,  chamado São Vitor. Uma das primeiras pessoas que conheci foi Alexandre Miranda. Passamos a ser amigos inseparáveis. Tão que quando perguntavam para nós se eramos parente, logo respondia: Ele é meu primo.

Não sei precisar exatamente o ano, mais isso foi por volta de 1976. Na época eramos muito parecidos quanto a situação de nossos pais. Pais separados que tinham outras companheiras. No meu caso eu passei a morar com meu pai e ele com a mãe. Que com o tempo a mãe dele, do agora meu primo, veio a ser minha madrinha, minha conselheira, minha orientadora e até conciliadora em um momento complicado antes do meu primeiro casamento, mas isso é outra história. Eramos “unha e carne”. Nossas vidas veio a se separar depois que começamos como o ativismo (trabalho, faculdade, casamento e tudo mais).

Como eramos filhos de pais separados, ele tinha que ver o pai dele e eu por vezes tinha que ir até Guaianazes ver minha mãe. Eu quase sempre estava com ele e o pai dele. O Seu Noé Miranda.

Seu Noé, do meu ponto de vista infantil (tinha mais ou menos 14 anos) e até hoje não apareceu ninguém e nenhuma história que contrariasse tudo vi e ouvi a respeito dele, me parecia uma pessoa bem sucedida que ganhava muito bem, pois morava em Moema enquanto nós morávamos no Parque Dom Pedro II em um prédio... vamos assim dizer... Simples.

Quando saíamos eu,  meu primo Alexandre e ele para almoçar. Era sempre um banquete. E ele fala quase sempre assim: Quer comer, pede! Pega ai. Bebia o whisky dele a “under rock's” e sempre bem vestido e num carro que pra mim era bem bonito.

Ao final de nossos encontros, ele chamava o Alexandre e dizia: Toma sua mesada. E dava a ele por volta de  Cr$ 10,00 (Dez cruzeiros). E foi exatamente num dia desses que Seu Noé marcou minha memória... O que me levou a contar tudo isso...

Certa vez ele sacou da carteira Cr$10,00 e deu ao Alexandre. Olhou pra mim e pegou outra nota de Cr$ 5,00 e veio com ela em minha direção e falou:
- Toma é pra você também.
- Não Seu Noé, muito Obrigado. Respondi a ele.
- E por quê você não quer? É dinheiro!
- Não quero porque não fiz nada pro senhor pra  merecer seu dinheiro.
Ele colocou o dinheiro de volta na carteira  e falou:
- Bom não quer não quer.

E ai começou o sermão.
Vocês tem que estudar para ser alguém na vida e não ser um Fudido! (Me desculpe pelo palavreado, mas ele falava assim mesmo).  Tem que trabalhar e estudar conseguir alguma coisa na vida e não ficar dependendo dos outros... Ficar como um Fudido por ai pedindo as coisas pros outros.

Foram poucas as palavras dela, porque não aguentávamos de tanto dar risadas pelo jeitão dele falar.
Do ponto de vista dele um “Fudido” é uma cara sem futuro. Hoje me lembro daquelas histórias  e me lembrei dele. Resolvi escrever este texto como uma homenagem a ele, uma vez que eu não estava tão perto quando ele passou.

Hoje eu e meu primo Alexandre quase não nos falamos, mas por culpa mesmo da correria. Mas que Deus nos conserve em vida para que possamos desfrutar de nossas aposentadorias sentados contando histórias... E nossos papais hoje vive em nossos corações.

Bom essa história fica para “a posteridade” como li certo dia em um blog por ai...

Obrigado por ler meu blog! Obrigado mesmo.